exame-aracatuba.com.br :: ano 1 - número 1 - Agosto de 2006 - NOVA METODOLOGIA
 
Testosterona e o Índice de Androgênios Livres
Mensurações de testosterona são muito úteis na avaliação do estado hipogonadal nos homens e hirsutismo e virilização em mulheres. Em homens, níveis aumentados de testosterona podem ser encontrados na resistência completa androgênica (feminilização testicular); e níveis reduzidos são encontrados em hipogonadismo, orquidectomia, terapia estrogênica, síndrome de Klinefelter, hipopituitarismo e cirrose hepática.Quando os níveis de testosterona são levemente elevados nas mulheres, pode haver o desenvolvimento do hirsutismo. O hirsutismo em mulheres está associado a administração de androgênios e a superprodução de testosterona.Parece haver uma correlação entre os níveis séricos de testosterona e o grau de hirsutismo,embora aproximadamente 25 por cento das mulheres com variados graus

de hirsutismo têm níveis séricos dentro da faixa de referência para mulheres. A produção anormal de androgênios em mulheres, a níveis similares àqueles vistos nos homens, pode causar a virilização. Outras condições que exibem níveis aumentados de testosterona, incluem irregularidades menstruais (oligomenorréia, amenorréia), síndrome de Stein-Leventhal (síndrome do ovário policístico), acne, tumores de ovário, tumores na adrenal e hiperplasia adrenal. Uma pequena superprodução de androgênios pode também ser observada em pacientes com doença de Cushing, em pacientes em pós-menopausa, em casos de gravidez e pacientes submetidos ao tratamento com androgênios.

FISIOLOGIA DA TESTOSTERONA
A testosterona, o hormônio sexual dominante nos homens, é um esteróide com 19 carbonos e uma massa molecular de 228,41 daltons. Este androgênio possui uma ligação insaturada entre os carbonos C4 e C5, um certo grupo no C3 e um grupo hidroxila no C17. (Veja Figura 1)
Nos homens, a testosterona é secretada pelos testículos e pelo córtex da adrenal.A síntese ocorre principalmente nas células intersticiais de Leydig dos testículos em resposta ao hormônio estimulante das células intersticiais (ICSH, também conhecido como hormônio luteinizante, LH)da glândula hipófise anterior. A testosterona é responsável pela regulação
da diferenciação do ducto de Wolffian, secreção de gonadotrofina e espermatogênese. (Em homens, o ducto de Wolffian, se desenvolve dentro do ducto do epidídimo, vaso deferente e vesícula seminal; em mulheres uma parte permanece como ducto vertical do “epoophoron”, o restante regressando ao ducto rudimentar de Gartner). É também responsável pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias, tais como os órgãos sexuais acessórios; próstata; vesícula seminal, e crescimento dos pêlos faciais, púbicos e das axilas, após a conversão em dihidrotestosterona, (Veja figura 2).

As mulheres normalmente possuem níveis de testosterona pelo menos 3 a 4 vezes mais baixos do que os encontrados em homens saudáveis. Nas mulheres, a testosterona provém de três fontes. As glândulas adrenais e os ovários secretam pequenas quantidades, mas a maior produção diária de testosterona (aproximadamente 50 a 60%) é derivada da conversão periférica dos hormônios androstenodiona e DHEA. HANING et al., têm estudado o papel da testosterona como regulador folicular. A testosterona de origem ovariana é secretada pelo compartimento intersticial da teca e estimula a secreção do FSH (resultando no crescimento folicular); a produção do fator de crescimento I tipo-insulina (IGF-I) (resultando a aromatase célula granulosa, atividade enzimática que catalisa a conversão da testosterona em estradiol) e inibição de secreção. A interação simultânea do eixo hipotalâmico-hipofisário com a teca e a célula granulosa resultam na seleção do folículo dominante.

 

 
TESTOSTERONA E SUAS PROTEÍNAS LIGADORAS
Uma vez secretada, a testosterona é quase que inteiramente ligada às proteínas transportadoras. Assim, em homens e mulheres, a testosterona está presente na circulação periférica em três formas: Livre, não-ligada (correspondente forma molecular livre); Fracamente ligada à albumina e à globulina ligadora do cortisol; Fortemente ligada às globulinas ligadoras dos hormônios sexuais (SHBG). A testosterona livre é biologicamente ativa, e a testosterona fracamente ligada à albumina pode ser imediatamente ativada através de sua rápida dissociação da albumina. Entretanto, o pool da testosterona livre e a fracamente ligada é coletivamente chamada de testosterona “biologicamente disponível” ou “não ligada à SHBG” (NSB-T). Estimativas da quantidade de testosterona em cada forma está indicada na tabela.
SHBG, a principal proteína transportadora para a testosterona, também ligase ao estradiol e a dihidrotestosterona. Esta proteína, pode ser conhecida como globulina ligadora dos hormônios sexuais (SHBG), globulina ligadora de estrógeno e testosterona (TeBG), globulina ligadora dos hormônios estereóides sexuais (SSBG), ou simplesmente, proteína ligadora dos hormônios esteróides sexuais (SBP).
A SHBG é a proteína transportadora mais importante por 3 razões: Ela carrega (pelo menos nas mulheres) a maior porcentagem de testosterona, mais que a albumina ou a globulina ligadora do cortisol. Ela liga-se à testosterona com afinidade muito maior (1,5x10-9 mol/L) do que as outras duas proteínas transportadoras. (A albumina se liga à testosterona com afinidade de aproximadamente 3,6x10-4 mol/L). A SHBG, em oposição à albumina, é sensível a mudanças nas taxas de estrogênios/androgênios circulantes. Assim, a SHBG possui papel muito maior na determinação do nível de testosterona livre. Os níveis de testosterona podem variar de acordo com os níveis de SHBG para manter a concentração de testosterona livre constante. É também esperado que quando a concentração da testosterona livre aumenta, a testosterona total aumentará e a SHBG diminuirá. O nível de SHBG é significativo pois a diminuição do nível de SHBG na presença de um nível normal ou pouco elevado da testosterona total, resultam em mais testosterona bioativa com alta atividade periférica dos androgênios.
 
ÍNDICE DE ANDROGÊNIOS LIVRES
Estado real dos androgênios podem ser visualizados tanto pela mensuração da testosterona livre quanto pelo cálculo da taxa de concentração de testosterona total com a concentração (ou capacidade de ligação) de SHBG. Essa taxa, que é um indicador muito útil nos estados de anormalidades androgênicas, é chamada de índice de androgênios livres, ou às vezes de índice de testosterona livre. Este é tipicamente calculado numa base molar/ molar e multiplicado por um fator de 10, 100 ou 1000 como mostrado abaixo: O índice de androgênios livres etá geralmente aumentado em processos de acne severa, alopécia androgênica nos homens (calvície), hirsutismo, e outras condições nas quais o nível de testosterona total é normal e o nível de SHBG é baixo. Em mulheres não obesas sem hirsutismo, com pouca menstruação, um nível elevado de FAI é encontrado durante o início da fase folicular, é reportado ser um indicador específico e sensível em doenças ovarianas policísticas. Muitos estudos têm encontrado que o FAI corresponde muito bem com a clínica do paciente, mas não se têm correlacionado de forma tão adequada com outras mensurações bioquímicas. Além do que, mensurações do NSBT não dão informação diagnóstica adicional nos pacientes com hirsutismo estudados
 

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